Mais um dia.
Isso aconteceu com meu amigo Godofredo um dia desses.
Godofredo teve um dia normal.
Acordou cedo, se arrumou, pegou um trânsito desgraçado para ir trabalhar (puts teve acidente?), fez seu horário comercial, se estressou, se cansou, se libertou quando o relógio apontou 18h (ou 18h + acréscimos dependendo da demanda), pegou toda aquela jornada da volta pra casa, fez alguma janta mequetrefe, se entregou a alguma coisa que ocupou sua cabeça por umas 2h e foi dormir pensando no que ia enfrentar amanhã.
Enfim, dia normal.
Godofredo acordou e teve mais um dia normal.
Acordar, transitar, trabalhar, estressar, cansar, libertar, transitar, jantar, entregar, dormir.
Outro dia normal, sem tirar nem pôr.
Se você perguntasse ao Godofredo o que achou do dia ele provavelmente responderia com um movimento de ombros e um ar saindo de seus pulmões no formato de um “eehh” frágil.
No fim estava tudo bem. Assim como um conjunto de vacas vira uma manada, esse conjunto de dias virava um salário. E Godofredo estava ciente que no ciclo básico de uma economia salários podem ser usados para adquirir bens e/ou serviços. Um bem e/ou serviço que lhe era muito interessante era o teto que ele encarava todas as noites procurando dormir.
Godofredo também estava ciente que depois de alguns dias ele teria um descanso, seja lá o que isso significa.
Godofredo teve mais um dia normal, com todos os verbos que ele tem direito.
Godofredo acordou tendo mais um dia normal, como todos os outros, e viu tudo em seu lugar, como tudo deve ser.
Como tudo estava em seu lugar ontem, Godofredo teve uma grande certeza que tudo estaria em seu lugar amanhã também. Ele só teria que verificar.
Estava sim, tudo em seu devido lugar.
O mesmo lugar de ontem, anteontem, ante anteontem e ante ante anteontem. O leitor é encorajado a pensar em uma quantidade aceitável de antes para serem inseridos antes de ontem, o leitor vai estar correto em assumir que os mesmos objetos estariam nesse lugar, pois é onde deveriam estar.
Até que um dia Godofredo sentiu um calafrio paralisante! Com a força de uma sensação que vai subindo lentamente sua espinha como suspeita antes de se transformar em uma surpresa de fato.
Ele se deu conta de algo impossível: todos os dias eram os mesmos!
Dessa vez de uma forma denotativa em vez da conotativa que estava acostumado.
Todos os dias ele lidava com o mesmo acidente na avenida, as pessoas no ônibus eram as mesmas, os processos eram os mesmos! Havia quanto tempo que eram os mesmos? Isso acontecia de verdade? Isso é impossível acontecer!? Mas estava acontecendo!!
Godofredo demorou mais do que alguns dias para passar pelos sentimentos no parágrafo anterior, fez alguns testes, concebeu algumas hipóteses, testou as hipóteses com experimentos, alguns bem-sucedidos e outros não.
Mas isso não importa no momento. Godofredo finalmente teve a certeza que ele estava em algum tipo de roteiro de filme da sessão da tarde e vivia o mesmo dia em eterna repetição.
Godofredo ficou confuso, porque ELE? Como isso aconteceu? Há quanto tempo isso começou (meu deus tem quanto tempo que não tenho um descanso? meses? anos?)
Como funciona esse tempo, é quando ele dorme? Com energéticos o bastante isso pode ser quebrado? Será que ficando acordado até o outro di-
Não, sempre reiniciava meia-noite em ponto. Loucura.
Godofredo também pensou nas várias artimanhas que ele poderia fazer:
Poderia observar o momento certo de entrar no banco e pegar um malote de dinheiro sem testemunhas: O vigia Cláudio mostrava um vídeo hilário de uma forma meio forçada para o vigia Sérgio observar com um sorriso amarelo entre as 14:47:25 - 14:47:55, um desses vídeos curtos demais para você rejeitar e longos demais para o Godofredo conseguir pegar um saco sem suspeitas.
A Renata ia deixar cair seu cartão de crédito com limite bastante elevado para pagamentos por aproximação na entrada da academia às 6:34 e só perceberia a falta dele em um amanhã que nunca chegaria para nosso herói.
Mário Sérgio deixaria seu carrão com alarme defeituoso na rua deserta das 9:04 até às 13:38 (incrível o que se pode aprender no YouTube hoje em dia), Tiago e sua concessionária de usados pagaria em espécie na hora e não faria muitas perguntas.
Godofredo se divertiu muito, talvez mais com toda a etapa de planejamento e execução do que realmente com o dinheiro em mãos. Depois de algumas dessas artimanhas darem certo ele ficou um pouco chateado demais com sua falta de criatividade e de tempo com esse dinheiro.
Ok, ele poderia procurar ter altas emoções. Vamos ter uma briga de bar, apostar um racha, mexer no celular estando no meio da rua.
eh…
As emoções são menos emocionantes quando você sabe que amanhã tudo volta à estaca zero. Além do mais aquela briga de bar doeu bastante.
Godofredo não entendia, ele foi colocado ali para ter uma lição? Encontrar o amor verdadeiro? Ajudar as pessoas? Tirar um escritor mambembe de um bloqueio criativo chato?
Ele não entendia como ele poderia escapar disso, nada daquilo fazia sentido.
Bem, pensou ele, pelo menos posso ler aquele livro que estava de olho mas nunca tinha tempo.
Depois ele foi escutar aquele disco que ele nunca tinha prestado atenção por estar sempre pensando no dia de amanhã.
Ah é! Tem aquele filme de Oscar que todo mundo teve opiniões muito fortes no twitter.
Godofredo não entendeu o que tinha acontecido com ele, se havia alguma escapatória ou sentido. Tudo o que Godofredo pôde fazer foi buscar algo novo todos os dias, alguns dias foram melhores que outros.
Mas os dias foram passando.
Apesar de serem sempre o mesmo.

